Chamada para comunicações até

28 de novembro, 2025


Comunicação dos resultados a partir de 5 de janeiro, 2026

Inscrições: final de janeiro até 22 de maio, 2026

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Retórica do silêncio: Lugares de conforto, resistência e violência

Qual é a essência do silêncio? Será possível apreendê-lo enquanto conceito e teoria? O senso comum dirá que é uma simples ausência de palavra e de ruído, vacuidade, algo incorpóreo. Como explicar a expressão “fazer silêncio”, ainda assim diferente de silentium facere (‘mandar calar’, segundo Tito Lívio). Já Séneca asseverava que os desgostos da vida ensinam-nos a arte do silêncio, como se a contenção verbal fosse sinónimo de prudência e sabedoria; também Shakespeare preferia ser rei do silêncio a ser escravo das palavras; Espinoza desejara que os homens tivessem no silêncio a mesma capacidade que têm no falar, e Eugénio de Andrade afirma que podemos gastar tudo menos o silêncio. A voz popular também tem algo a dizer acerca do silêncio: a palavra é de prata e o silêncio é de ouro ou para bom entendedor meia palavra basta. Estudos indicam que os silêncios podem ocupar entre 30 e 50% do tempo de um discurso (político, mas não só) com todas as suas pausas, suspensões, hesitações, omissões. Pela voz dos oprimidos, o silêncio pode representar a sua impotência, resignação, resistência; pela voz dos opressores, violência e indiferença. O silêncio consubstancia-se, diferenciadamente, em cada uma das suas realizações semântico-pragmáticas: silêncio de fascínio ou de desprezo, de descontração ou de tensão, de serenidade ou angústia, de encontro connosco e/ou de afastamento dos outros; o silêncio pode servir cúmplices ou culpados; em cenário de doença é luto, em cenário de guerra é morte, em cenário idílico é paz.

Os poemas homéricos não podem ser lidos sem a consciência do quão silenciadas e silenciosas foram as vozes femininas: veja-se a recusa de Telémaco em ouvir Penélope, que talvez seja o primeiro exemplo registado na literatura ocidental de um homem a mandar calar uma mulher. Mas será possível interpretarmos silêncios de Penélope? Da mesma forma, que destaque dão ao silêncio os antigos tratados de retórica greco-romana, exarados por Sofistas, e autores como Platão, Aristóteles, Cícero, Quintiliano? O silêncio merece especial atenção enquanto habilidade comunicativa também nos restantes géneros literários da Antiguidade: trágico, cómico, historiográfico, lírico, e noutros sistemas semióticos como a pintura e a escultura, que manuseiam estratégias retóricas não verbais; todavia, potenciadoras de um fluxo linguístico íntimo. No humanismo renascentista, as obras enciclopédicas (“Collectanea”, “Miscellanea”, “Adagia”) são reveladoras do labor filológico assente na supressão e contenção, na multiplex imitatio e na ars colligendi de aforismos e sentenças - maxima in minimis.

A Historiografia pratica, desde a Antiguidade, estratégias retóricas indiciadoras de silêncios, seleções e omissões, e a Literatura hipercontemporânea explora-os ficcionalmente, construindo a partir dos escombros outras/novas alternativas do que ficou por cumprir, do que poderia ter sido, iluminando alguns desses ângulos mortos. Os Estudos Pós-coloniais são disso exemplo, no ressurgimento de dores e processos, na sublimação de traumas e na senda de dar voz aos silêncios que decantaram nas dobras do Tempo.

No campo da Filosofia (da linguagem mas não só) Kierkegaard falava no silêncio como uma interioridade inexprimível, de inefável ligação do indivíduo ao Absoluto. A Teologia debruça-se sobre esse espaço de acolhimento, de introspeção e de encontro com o Divino, que Dionísio Areopagita descrevia como Teologia apofática, São João da Cruz, como oxímoro de ausência nessa noite escura. Se pensarmos nos principais expedientes lógico-estilísticos que servem como estratégias de silêncio, enunciamos figuras como aposiopesis, abruptio, suspiratio, ellipsis, synecdoche, homoioptoton, homoioteleuton. A elipse e a ambiguidade, que se articulam com a ironia e o sarcasmo, integram as estruturas fecundas aos estudos de Humor.

Nesta Sociedade da Decepção, de imediatismo voraz, exponenciado pela IA, os formatos dry texter não deixam de conter, nos seus silêncios, omissões e distorções perigosas, esvaziados de qualquer dimensão afetiva. Na Era da hipercomunicação, em que recebemos diariamente uma infinidade de estímulos, nesta acumulação e sobreposição de informações, que espaço consagramos ao silêncio, que parece reduzido a um lugar de isolamento? Poderá o silêncio ser um meio de resistência, capaz de aprofundar, decantar e preservar algo incólume à erosão do Tempo? E afinal, terá o silêncio sempre a última palavra?

As comunicações deverão ter a duração máxima de 20 minutos, e poderão ser feitas em língua portuguesa ou numa das seguintes línguas: espanhol, francês, italiano, inglês e alemão. O congresso será integralmente presencial. Para saber os valores de inscrição, aceda à respetiva página.

Para refletir sobre estas e outras questões, a Sociedade Portuguesa de Retórica e o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra convidam à apresentação de propostas de comunicação para o congresso a realizar nos dias 2 e 3 de julho de 2026, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. São bem-vindas todas as propostas que versem sobre qualquer um dos eixos abaixo enunciados ou outro que entenda pertinente:

  • História da Retórica
  • Retórica da História
  • Retórica e Estudos de Género
  • Retórica e Análise do discurso
  • Retórica e Argumentação
  • Retórica e Publicidade
  • Retórica e Música
  • Retórica e Filosofia
  • Retórica e Humor
  • Retórica e Literatura
  • Retórica e Política
  • Retórica e IA
  • Retórica e Tradução
  • Retórica, Estética e Arte

Conferencistas Convidados

Professora Doutora Robin Reames

(Presidente da International Society for the History of Rhetoric)


Professor Doutor Francisco Chico Rico

(Organización Iberoamericana de Retórica (OIR) e Sociedade Española de Retórica)


Professor Doutor Juan Luis Conde

(Presidente da Sociedade Espanhola de Retórica, Departamento de Filología Clásica, Universidad Complutense)


Professor Doutor Belmiro Fernandes Pereira

(fundador da Sociedade Portuguesa de Retórica, Universidade do Porto)

Comissão Científica

Adriana Nogueira (CECH / Universidade do Algarve, Portugal)
Adriano Scatolin (Universidade de S. Paulo, Brasil)
Aiko Okamoto-Macphail (Indiana University, EUA)
Alejandra Vitale (Universidad de Buenos Aires, Argentina)
Alexandra Lourenço Dias (King’s College London, Reino Unido)
Ana Lúcia Oliveira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil)
Ana Rita Gonçalves (Universidad Complutense, Espanha)
Anne Régent (Université Sorbonne Nouvelle, França)
António Rebelo (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Aurélio Vargas Díaz-Toledo (Universidad Complutense, Espanha)
Barbara Fraticelli (Universidad Complutense, Espanha)
Bartosz Awianowicz (Nicolaus Copernicus University, Polónia)
Belmiro Fernandes Pereira (CECH / Universidade do Porto, Portugal)
Carlos Ascenso André (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Carlos de Jesus (Universidad de Granada, Espanha)
Carlota Urbano (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Carmen Soares (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Catarina Coimbra de Matos (Universidad Complutense, Espanha)
Christos Kremmydas (Royal Holloway University of London, Reino Unido)

Cinthia Gannett, (Boston College, EUA)
Cláudia Cravo (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Eric MacPhail (Indiana University, EUA)
Francisco Chico Rico (Universidad de Alicante, Espanha)
Francisco García-Jurado (Universidad Complutense, Espanha)
Gonçalo Marcelo (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Gregorio Rodriguez Herrera (Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, Espanha)
Hanne Roer (University of Copenhagen, Dinamarca)
Javier Helgueta Manso (Universidad Complutense, Espanha)
Joaquim Pinheiro (CECH / Universidade da Madeira, Portugal)
Jorge Deserto (CECH / Universidade do Porto, Portugal)
José Luís Brandão (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Leonardo Lyon-Velloso (Emory University, EUA)
Lucía Díaz Marroquín (Universidad Complutense, Espanha)
Manfred Kraus (Universität Tübingen, Alemanha)
Margarida Miranda (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Maria Cecília de Miranda N. Coelho (Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil)
Maria de Fátima Silva (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
María Letícia López Serratos (Universidad Nacional Autónoma de México, México)
Maria Luisa Malato (Universidade do Porto, Portugal)
María Violeta Pérez Custodio (Universidad de Cádiz, Espanha)
Marta López Vilar (Universidad Complutense, Espanha)
Matteo Pupillo (Université Sorbonne, França)
Nair de Nazaré Castro Soares (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Paula Barata Dias (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Paulo Estudante (CECH / Universidade de Coimbra, Portugal)
Priscilla Gontijo Leite (CECH / Universidade Federal de Paraíba, Brasil)
Rodrigo Furtado (Universidade de Lisboa, Portugal)
Rui Tavares de Faria (CECH / Universidade dos Açores / Universidade de Coimbra, Portugal)
Sílvia Amorim (Université Bordeaux Montaigne, França)
Sophie Conte (Université Reims, França)
Tatiana Faia (Investigadora Independente)