Do curso de Medicina

De olhos postos em altos voos

Há 20 anos, poucos meses depois de os olhos de Portugal estarem voltados para o Euro 2004, a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) dava as boas-vindas a Inês Laíns. “Entrei na faculdade em 2004. Nesse verão, frequentava ainda o ensino secundário, no Dona Maria, e lembro-me de ter de ir fazer alguns dos exames nacionais à [Escola Secundária] José Falcão por causa dos jogos. Foi, definitivamente, um ano inesquecível”, comenta.

Os anos que se seguiram deixaram também memórias marcantes, que a par da boa disposição com a qual partilha vários momentos da sua vida, levou certamente na bagagem quando chegou a altura de voar para fora do País. Mas, por agora, fiquemos por Coimbra, onde tudo começou.

“Nasci na Maternidade Bissaya Barreto, no dia 2 de junho de 1986”, indica. Da infância, que garante ter sido maravilhosa, guarda memórias extremamente felizes. “Tantas, que quase é difícil para mim partilhar”, refere.


A maior parte da infância foi passada na Rua Infanta Dona Maria. “Mesmo em frente ao que, na altura, se chamava o ‘pavilhão da Académica’. Vivia numa rua praticamente sem trânsito, e tinha a sorte de ter seis ou sete vizinhos da minha idade. Todos os dias, quando chegávamos da escola, era uma festa: brincávamos até ser hora de jantar! Éramos quase família”, constata.


“Para isso, muito contribuiu também o facto de os meus pais terem uma garagem que tinha dois andares. O andar de baixo estava transformado numa sala enorme de brinquedos. Era o nosso local de encontro, onde passávamos horas e horas a fio. Ainda hoje consigo visualizar exatamente onde estava tudo na garagem. Já no verão, passávamos muito tempo na rua. Lembro-me até de montarmos uma piscina insuflável na rua e de todos adorarmos brincar juntos”, complementa.

O jardim de infância e a escola primária foram também marcantes para Inês Laíns. “Andei no [Jardim-Escola] João de Deus da Solum até à quarta classe. Adorava a escola e tudo o que fosse relacionado com a escola!”, afiança. “Para terem uma ideia, ainda hoje sei as canções que cantávamos todas as manhãs e o hino do João de Deus! Alguns dos meus amigos da altura são, ainda hoje, meus amigos. Acho que ter amigos ‘da vida toda’ é um privilégio enorme”, salienta.


Muitas são também as memórias vividas, na infância, com a família. “A minha avó materna vivia em Gouveia, e eu e a minha prima – filha da irmã gémea da minha mãe – passávamos com ela imenso tempo, sobretudo nas férias. Adorava ir com ela para Gouveia de comboio: era uma aventura!”, faz saber.


Até ao 12º ano de escolaridade, Inês Laíns foi sempre a pé para a escola e para a maioria das atividades extracurriculares. “Viver naquela zona era ótimo, porque tudo era perto. Isso definitivamente tornou tudo mais fácil, e permitiu-me crescer rodeada de amigos. Sou filha única e ter tido o privilégio de crescer com tantos amigos foi, de facto, determinante para a pessoa que sou hoje. Nunca me senti sozinha”, observa.

Para quem, em criança, sonhava ser professora “quando fosse grande”, ter ido para o curso de Medicina parece ser uma total troca de planos. Mas, como explica Inês Laíns, esse sonho acabou por ser, de certa forma, concretizado. “Sempre quis ser professora! Uma das minhas brincadeiras preferidas de infância era sentar os meus bonecos todos numa roda e fingir que lhes dava aulas”, conta. “E, durante anos a fio, já no ciclo e na escola secundária, estudava a falar alto e a fingir que dava aulas. Ainda hoje, adoro dar aulas. De algum modo, concretizei o meu sonho, embora aplicado à Medicina”, explica.


E eis que, em 2004, depois do Jardim-Escola João de Deus, da Escola Básica Eugénio de Castro e da Escola Secundária Infanta Dona Maria, foi altura, como já referido, de Inês Laíns ingressar no curso de Medicina da FMUC. “Os meus tempos de estudante universitária foram absolutamente maravilhosos. Fiz um grupo de amigos muito próximos, espetacular, e sinto que não poderia ter tido melhores colegas”, afirma.

Inês Laíns indica que sempre foi boa aluna, mas isso não a impediu de se divertir nos anos de faculdade, que sente que aproveitou ao máximo. “Provavelmente, fui a quase todos os convívios possíveis do nosso curso! Para além disso, logo desde o primeiro ano, estive envolvida na comissão de curso e depois acabei por ter um papel muito ativo também no NEM [Núcleo de Estudantes de Medicina] e, mais tarde, na ANEM [Associação Nacional de Estudantes de Medicina]”, refere.


“Isso permitiu-me conhecer quase todos os meus colegas, o que foi uma experiência muito enriquecedora. Permitiu-me também estabelecer algumas relações mais próximas com alguns professores, como a Professora Isabel Carreira ou a Professora Marília Dourado. Ainda hoje, tenho imenso carinho por ambas e sinto que as conheço há uma vida. O meu envolvimento na faculdade também me permitiu ter relações próximas com funcionários da FMUC, com quem ainda hoje continuo em contacto: a Dra. Paula Roldão talvez seja disso o melhor exemplo”, declara.


Em tom de brincadeira, quando questionada sobre algum episódio marcante dos tempos de estudante universitária de que se recorde e queira partilhar, Inês Laíns refere que a primeira coisa que lhe vem à cabeça, “por mais incrível que pareça”, são os convívios no parque de estacionamento e no bar do antigo edifício da FMUC. “Provavelmente, esses convívios já não acontecem – seria ótimo que sim! – mas foram talvez as festas mais marcantes da minha vida”, graceja.

“Falando mais a sério, penso que o meu envolvimento na ANEM foi extremamente marcante para mim. Inicialmente, fui coordenadora de projetos e, no meu quinto ano de curso, fui eleita presidente da ANEM”, conta. “Essa experiência foi altamente enriquecedora, não só pela aprendizagem de gerir uma equipa, um orçamento e um número importante de projetos de alto nível, mas sobretudo pelas pessoas que conheci e as relações que estabeleci. Encontrei na ANEM pessoas com uma filosofia de vida muito semelhante à minha e estabeleci relações muitíssimo profundas que ainda hoje mantenho. A ANEM ensinou-me também a sonhar mais alto e a perceber que conseguia fazer acontecer”, complementa.

Já quando a pergunta diz respeito ao motivo que a levou a escolher a Oftalmologia, Inês Laíns é peremptória. “Porque é a melhor especialidade do mundo!”, assegura. “Agora falando a sério, na minha opinião, a Oftalmologia combina o que de melhor temos na Medicina. O doente é ‘nosso’ do início ao fim: é importante ouvir a história, o exame físico é essencial, somos nós que fazemos o diagnóstico e depois há imenso para oferecer em termos de tratamento, tanto médico como cirúrgico: temos a sorte, na Oftalmologia, de resolver a maioria dos problemas com que os doentes vêm à nossa consulta ou à urgência”, observa.


“Para além disso, a visão é, sem dúvida, um sentido absolutamente crucial para o ser humano. É extremamente gratificante sentir que estamos a fazer algo que tem um impacto enorme no dia a dia das pessoas. Por outro lado, a Oftalmologia é também uma especialidade de vanguarda: há imensa investigação permanentemente em curso e isso é extremamente estimulante!”, declara.

Quando estava no Internato de Oftalmologia em Coimbra, decidiu concorrer ao Programa Harvard Portugal, que consistia numa colaboração entre a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e a Harvard Medical School. Inês Laíns foi selecionada para o programa, que consistia em dois anos de aulas sobre como fazer investigação clínica de qualidade. “Eu já tinha alguma curiosidade sobre investigação, mas foi, sem dúvida, o programa que espoletou a paixão que tenho hoje e que me fez sonhar em fazer uma carreira como clinician scientist”, assegura.


Para além dos dois anos de aulas, o programa tinha também bolsas de investigação abertas para todas as áreas da Medicina. Uma delas era a Junior Grant and Career Development Award. “Eu concorri com o meu projeto e tive a sorte de ganhar: foi assim que tive financiamento inicialmente para o meu projeto de doutoramento e que vim para Boston, para o Massachusetts Eye and Ear [MEE]”, conta.

Na altura, a bolsa incluía um ano de mentoria numa instituição da Harvard Medical School, e Inês Laíns identificou uma equipa com a qual gostaria de trabalhar no MEE. “Foi assim que vim parar cá e, depois disso, as coisas foram acontecendo”, afirma.


No final do ano financiado pela bolsa, o projeto estava em “franco andamento” e havia ainda muito por fazer. “Por isso, ofereceram-me diretamente trabalho aqui no MEE. Fiquei mais três anos a fazer investigação e acabei por completar todo o meu trabalho de investigação do doutoramento aqui, mas sempre em colaboração com a equipa de Coimbra, claro!”, refere.


A defesa da tese foi feita em Coimbra, mas na altura Inês Laíns sentiu que queria continuar a trabalhar no MEE porque tinha outro tipo de oportunidades para continuar o seu projeto. “Foi por isso que acabei por ficar. Mas isso também trouxe os seus desafios!”, admite.


“Infelizmente, nos Estados Unidos, os cursos de Medicina feitos noutros países não são reconhecidos. Por isso, tive de fazer uma série de exames e depois concorrer e recomeçar a minha formação clínica: repeti o correspondente ao ano comum e depois recomecei aqui, do zero, o Internato em Oftalmologia. Depois disso, fiz também um fellowship de retina cirúrgica”, menciona.

Inês Laíns dedica-se à investigação em Degenerescência Macular relacionada com a Idade (DMI), a principal causa de cegueira em pessoas com mais de 50 anos. “A DMI é uma doença multifatorial. No entanto, ainda compreendemos pouco sobre o modo como genes e fatores ambientais interagem para promover o desenvolvimento da doença e a sua progressão. E isso tem implicações clínicas grandes: não temos atualmente tratamento para a maioria das formas da doença e não conseguimos parar a sua progressão”, destaca.


Nos últimos anos, Inês Laíns tem aplicado a metabolómica ao estudo da DMI, com resultados interessantes. “A metabolómica é o estudo das moléculas pequeninas nos nossos fluidos corporais, como o sangue. Os metabolitos são o produto final do processo de transcrição genética, pelo que se pensa que são a representação mais próxima de doenças multifatoriais, como é o caso da DMI”, esclarece.


“Nos meus estudos, temos identificado perfis específicos de metabolitos associados à DMI e também ao risco de progressão. No futuro, com mais análises e mais dados, acredito que podemos identificar as principais vias e mecanismos envolvidos na progressão da doença. E isso é absolutamente crucial para identificar novos tratamentos que consigam travar a progressão da doença para a cegueira. Esse é, sem dúvida, o meu objetivo último”, enfatiza.

Atualmente, é especialista de retina no MEE/Harvard Medical School. “Tenho a sorte de ter uma Grant do NIH [National Institutes of Health], e tenho tempo protegido para fazer investigação. Ou seja, tenho atividade clínica – consulta e bloco – 25% do tempo e nos restantes 75% faco investigação. Participo também no ensino dos internos e dos fellows”, indica.


Sobre quais serão os seus próximos passos enquanto médica e cientista, Inês Laíns considera que, como médica, sente que tem de continuar a estabelecer-se e a crescer como uma boa cirurgiã de retina. “Terminei o meu fellowship de retina cirúrgica aqui no MEE há pouco tempo e comecei também há pouco tempo a operar sozinha. A transição tem sido uma grande aprendizagem, sem dúvida. O processo de decisão no bloco é diferente quando somos nós que temos a responsabilidade final e quando sentimos que está nas nossas mãos recuperar a visão de alguém”, destaca.


Enquanto cientista, afirma que o próximo passo a dar será o de aprender mais sobre Inteligência Artificial (IA), já que tem como objetivo aplicá-la ao estudo da DMI. “Acredito que a IA pode, de facto, ter um papel importante na Oftalmologia. No caso da DMI, a minha área de investigação, acredito que pode ajudar a caracterizar melhor os diferentes fenótipos da doença, o que é crucial para compreender melhor os mecanismos por trás da sua progressão”, indica.


A título de exemplo, Inês Laíns refere que tem como objetivo utilizar a IA para quantificar alterações em exames de imagem e ver como se relacionam com perfis genéticos e metabolómicos.

“Na Oftalmologia, no geral, e especialmente na retina, penso também que a IA nos pode ajudar imenso no screening de doentes que têm de ser vistos por um especialista. Por exemplo, existem já algoritmos de IA aprovados pela FDA [Food and Drug Administration] para fazer screening de retinopatia diabética. Quando conseguirmos aplicar isso no nosso dia-a-dia clínico, pode fazer uma diferença enorme na capacidade de identificar doentes em risco e que precisam de ser vistos e tratados”, salienta.


“Um dos meus sonhos é conseguir identificar e desenvolver um tratamento para parar ou atrasar a progressão da degenerescência macular. Isso iria ter um impacto gigante na vida e na visão de milhares de pessoas. Adorava também poder contribuir para mudar o paradigma da investigação clínica em Portugal”, observa.


“Infelizmente, no nosso país ainda não existe estrutura para fazer aquilo que eu tenho nos Estados Unidos, isto é, para trabalhar numa instituição onde existe 75% de tempo protegido para fazer investigação e ser paga por isso. Penso que muitos médicos em Portugal estariam interessados em algo semelhante, mesmo que fosse menos tempo de investigação, e que isso poderia fazer uma diferença importante no nosso país”, declara.

Inês Laíns admite que conciliar a vida profissional com a pessoal não tem sido fácil, e que, há poucos meses, essa gestão se tornou ainda mais desafiante. “Tive o meu primeiro filho há cerca de cinco meses. Ter um filho foi a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu na vida. Ao mesmo tempo, muda as perspetivas”, constata.


“Embora continue a adorar a minha profissão e a querer atingir os meus objetivos profissionais, estar presente na vida dele é, sem dúvida, uma prioridade para mim. E o facto de vivermos longe da família não ajuda: seria mais fácil se continuasse em Coimbra e tivesse os meus pais e família para nos ajudar”, acrescenta.


Deste modo, afirma que a forma como tem conseguido encontrar algum equilíbrio entre a profissão e a vida familiar é criando ‘barreiras’. “Claro que nem sempre é possível, mas tento não trabalhar muito ao final da tarde quando chego a casa e ao fim de semana”, afirma.

“Apesar de ter um horário muito flexível, com 75% de tempo de investigação que pode ser feita onde quiser, todos os dias vou para o MEE, e quando são horas de trabalhar, estou lá e estou 100% focada. A ideia é a de que, se fizer isso, quando chegar a casa posso ter tempo para estar com o meu filho e o meu marido. Mas obviamente que isto nem sempre funciona: todos os dias há um esforço consciente para fazer as coisas funcionarem”, observa.


Quando não está a trabalhar, Inês Laíns diz que a sua atividade favorita é estar com os amigos e fazer coisas com eles e com a família. “Adoro organizar coisas em casa – jantares, almoços – e reunir as pessoas o maior número de vezes possível. Gosto também de experimentar restaurantes novos e de provar um bom vinho de qualidade. Para além disso, adoro as minhas aulas no ginásio: já há uns anos valentes que faço aulas de Barre, uma espécie de ballet adaptado ao ginásio, que adoro e que sinto que funcionam como a minha melhor oportunidade para relaxar”, conta.

De tudo aquilo que já fez, Inês Laíns admite que o que mais a orgulha foi ter ido sozinha para Boston e de aí ter conseguido adaptar-se e estabelecer uma boa reputação. “Vir para Boston foi, sem dúvida, o maior desafio da minha vida. Vim sozinha e não conhecia absolutamente ninguém. Foi extremamente difícil no início adaptar-me e fazer amigos. A cultura americana é muito diferente da nossa: tudo era diferente e difícil. O primeiro ano foi extremamente complexo para mim, nunca me senti tão sozinha na minha vida”, assume.


“Para além disso, no MEE obviamente ninguém me conhecia e, infelizmente, penso que, no geral, os americanos têm sempre algum ‘ceticismo’ em relação a estrangeiros. Tive de trabalhar muito para ser respeitada como sou hoje. Sinto que nada me foi ‘oferecido’. Tudo o que tenho hoje foi o resultado de imenso trabalho e dedicação. E isso não foi fácil”, declara.

Apesar de os seus voos académicos e profissionais a terem levado até Boston, Inês Laíns não esquece os colegas e mentores que a ajudaram, ao longo dos anos, a tornar os seus objetivos possíveis. “Tudo começou em Coimbra e sou muito grata por todo o apoio que me deram e que me dão ainda hoje para tornar as coisas possíveis, já que o meu estudo principal continua a decorrer em paralelo em Boston e em Coimbra”, constata. “Por isso, gostaria de agradecer a todas as pessoas do Serviço de Oftalmologia do CHUC [Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra] e também da AIBILI [Associação para Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem]”, observa.


“Torna-se difícil enumerar pessoas porque, de facto, tenho a sorte de ter amizades muito profundas e relações próximas com muitos deles, mas, em especial, o Professor Rufino Silva, o Professor Murta, o João Gil, o João Pedro Marques e a Joana Providência foram e são incansáveis comigo. Também tenho de agradecer ao Professor Eduardo Silva, que foi a pessoa que me encorajou, desde o primeiro dia, a ‘voar mais alto’”, conclui.


por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Inês Laíns


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